sexta-feira, janeiro 18

Gaita, Estradas e Desespero !!

9/ Aplausos



Olá a todos.

 Aqui quem vos fala é O Bardo. Sim, eu sei que sumi um bom tempo e tudo mais. Mas me digam, como foi a virada de ano de vocês ? 2013 será um ano de mudanças e tudo mais ? Bom... eu espero que seja, aliás, já está sendo. E aqui estou com o nosso querido conto, depois dos esporros de algumas leitoras e de ter perdido o arquivo que tinha a parte a seguir.... eu sei, eu sei, sou uma mula. Mas pra compensar o "capítulo" de hoje é um pouco maior que o normal. =D

 MAS CHEGA DE PAPO... e vamos para o que importa. Se quiser ler a parte anterior é só clicar AQUI !!

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 Saber que aquele padre idiota me encontrou não me ajudou nada a noite. Dor e os pensamentos de como dar o fora daqui me perturbaram por toda madrugada. Preciso pensar rápido mas acho que nas minhas condições físicas seria impossível sair daqui correndo. Estou aqui a horas e justamente nos poucos momentos que fechei os olhos alguém entrou aqui pra me deixar comida e remédios. O jeito, mais uma vez, é esperar.

 Fico acordado tempo o bastante para ver o sol nascer. Algumas horas depois finalmente uma enfermeira entra no quarto trazendo o que parece ser meu café da manhã e mais remédios.

 - Já acordado ?
 - Na verdade o certo é AINDA acordado.
 - Entendo, mas acho que não é hoje que você é liberado.
 - O que aconteceu comigo ?
 - Não se lembra ?
 - Não é que não me lembre, é que quando bati com a moto eu acabei apagando. Quero saber se quebrei algo ou coisa do tipo.
 - Ah sim, me desculpe. Deixa eu ver aqui.

 Ela vai até a cabeceira da minha cama e pega uma prancheta com algumas folhas.

 - Tirando os ralados na testa e outros lugares... Deixa eu ver... Você tem duas costelas fissuradas e um inchaço próximo do joelho.
 - Ótimo, quer dizer que não vou sair andando normalmente. Era tudo que eu precisava.
 - Fique calmo, isso não é pra sempre. E pelo visto já está melhor, não falaria normalmente sem ser medicado. Já ia me esquecendo, você tem visita.
 - Se for aquele padre maldito não deixe ele entrar.
 - Padre ? Olha, eu acabei de começar o meu plantão. Se ele é um padre não sei, pelo menos não está vestido como um.
 - Então quem é ? Não moro por aqui e não tenho parentes morando por aqui.
 - Acho que é alguém que viu seu acidente, algo do tipo. Me desculpe mas agora tenho que ir. Mando ele entrar ?
 - Acho que não pode ficar pior, mande entrar.
 - Ok, não deixe de comer e tomar os remédios.
 - Pode deixar, obrigado.

 Aguardo alguns minutos imaginando quem pode ser. Mas minha preocupação maior agora é sair daqui e a minha moto. Merda, será que jogaram ela em algum ferro-velho ? Tanto trabalho pra no final das contas perder tudo do nada. Melhor parar de pensar tanto e comer um pouco.

 Assim que começo minha refeição um senhor entra no quarto. Aparente ter seus sessenta e poucos anos, bem vestido de terno, gravata e tudo mais.

 - Olá rapaz, está bem ?
 - Você é da funerária e isso é uma pergunta retórica ?

 Ele fica em silêncio alguns segundos por conta da minha resposta. Melhor ir com mais calma.

 - Então, quem é o senhor ?
 - Sou o dono do carro que você bateu ontem de noite.

Ótimo, mais problemas.

 - Me desculpe mas eu acho que o pouco dinheiro que tenho não pode pagar pelo conserto.
 - Não, não vim cobrar isso. Na verdade vim fazer um pedido.
 - Pedido ?
 - Sim, um pedido. Escuta rapaz, eu sou o diretor de uma escola primária aqui da cidade. Não fica nada bem pra minha imagem ter atropelado um forasteiro durante a noite.
 - Então o senhor quer que eu finja que nada aconteceu ? É isso ?
 - Sim... em curtas palavras é isso.
 - O senhor tem plena consciência de que estava errado em passar por aquele cruzamento sem parar, não é ?
 - Sim, por isso mesmo. Foi uma batida lateral. Não teria como mentir.
 - Então pensou em mentir ?
 - Não, não é isso. Olha, eu até mandei sua moto pro conserto. Vamos deixar essa história morrer aqui, estamos acertados ?

 Ele parece desesperado, mas isso eu também estou. Droga, infelizmente terei de fazer algo que nunca pensaria em fazer... me aproveitar do desespero de alguém.

 - Senhor... eu tenho que dar o fora daqui até antes do almoço. Me ajude a sair daqui, me leve até minha moto e estamos acertados.
 - Te ajudar a sair ? Mas você ainda tem que dar seu depoimento a polícia.
 - Eu sei... e seria uma pena se eu falasse que você estava bêbado na hora do acidente.
 - O QUE ? VOCÊ SABE QUE ISSO É UMA MENTIRA !!
 - Fale baixo, não queremos chamar atenção de ninguém. Você quer manter sua imagem limpa e eu quero dar o fora daqui. Acho que um forasteiro não teria por que mentir pra prejudicar você e isso faz com que as pessoas acreditem mais na minha versão da história.

 Ele coloca as mãos no rosto e começa a andar em círculos pelo quarto. Me sinto um lixo de pessoa por fazer isso a alguém mas infelizmente não tenho escolha.

 - Ok, ok... o que quer que eu faça ?
 - Vá na recepção, diga que é meu tio e que estou me responsabilizando em sair sem alta.
 - Mas quase todos por aqui me conhecem.
 - A enfermeira que estava aqui antes não conhecia.

 Estico minha mão com um pouco de dificuldades e toco a campainha de alerta para o enfermeiro de plantão enquanto o senhor senta com um ar de desolação. Alguns segundos a porta se abre a enfermeira que me atendeu antes surge.

 - Algum problema ?
 - Nenhum, meu tio veio me buscar. Como faço pra sair ?
 - Você ainda não recebeu alta, não pode sair.
 - Mas sei que posso assinar um termo me responsabilizando por isso.
 - Sim, pode... tem certeza ?
 - Absoluta. Me responda, como faço pra sair daqui ?
 - Vou pegar um par de muletas pra você ir até a recepção e assinar o termo. Mas se não conseguir ir até lá ficará aqui até ganhar alta.
 - Vou conseguir, não se preocupe.

 A enfermeira sai do quarto enquanto o senhor a observa em silêncio, pensativo.

 - Ela fez um juramento pelo bem-estar humano. Devia respeitar isso.
 - Respeitar não é um verbo que posso usar hoje.
 - Eu percebi...

 Mais uma vez ele fica em silêncio. A enfermeira volta com o par de muletas e me ajuda a sair da cama. Nossa, como meu peito dói. Mas não posso demostrar isso ou acabo ficando por aqui. Vamos com calma e paciência.

 - Onde estão minhas coisas ? Minha mochila e tudo mais ?
 - Pode pedir na recepção assim que assinar o termo.

 Vou me arrastando pelos corredores do hospital acompanhado pelo senhor e a enfermeira. Não sei como alguém consegue trabalhar nesse tipo de lugar, sempre me passa um clima de "aguardo pela morte". Acho que no fundo passa esse clima pra todo mundo. Mas cada um tem a sua vocação, sem eles eu seria só mais um pedaço de carne na estrada.

 Chego na recepção sentindo dores imensas no peitos, mal consigo respirar. A enfermeira apenas me olha com cara de desconfiada enquanto o senhor mais uma vez procura um canto para sentar e ficar em silêncio. Ela me estende o termo e me dá uma caneta.

 - Leia com calma e assine.

 Ignoro completamente o que ela diz e apenas assino.

 - Onde estão minhas coisas ? Rápido.
 - Só um minuto.

 Ela se afasta e vira em um corredor. Aproveito e saio de perto da recepcionista antes que ela me encha de perguntas. Me aproximo do senhor.

 - Onde está minha moto ?
 - Vou te levar até lá, não se preocupe. Mas me diga, o que vou falar para a polícia ?
 - Apenas diga que o forasteiro sumiu. Me deixe perto de onde colocou minha moto e de lá vou embora, sem problemas.

 Antes que ele possa responder a enfermeira surge com as minhas coisas. Verifico tudo, minha gaita, as poucas mudas de roupa e o pouco dinheiro que tenho. Tudo em ordem.

 - Você vai com esses trapos de roupas sujas de sangue mesmo ? - Ela pergunta.
 - Não estou nu, ainda servem. Muito obrigado por tudo e adeus.
 - Espera... você falou de um padre. Se ele aparecer o que devo falar ?
 - Diga que fui para o inferno e que estou esperando ele por lá.

 Ela faz uma cara de espanto, me viro e sigo para fora do hospital. O senhor vem logo atrás e me aponta o carro dele. Entro com certa dificuldade por conta do inchaço perto do joelho e partimos em direção a oficina que ele deixou minha moto. O senhor fica em silêncio até o momento que falo :

 - Pode parar em alguma farmácia ? Preciso comprar uns analgésicos.
 - Tudo bem. Você tem dinheiro ?
 - Pouco, mas acho que dá.

 Paramos em frente a farmácia. Ela sai sem nem ao menos cogitar em me ajudar. Entra e volta em poucos minutos com uma sacola.

 - Tome, aqui tem analgésicos e alguns curativos.
 - Quanto lhe devo ?
 - Nada, apenas vá embora logo. Não é isso que quer ?
 - Sim... é isso que quero.

 Seguimos por mais alguns quarteirões até que ele para o carro.

 - Mais a frente é a oficina. Apresente os documentos da moto e essa nota fiscal pra pega-la.
 - Muito obrigado.
 - Obrigado é o termo certo.
 - Me desculpe senhor, mas não tive outra alternativa.
 - Sempre temos outras alternativas. Você me chantageou, podia ter pedido minha ajuda. Afinal, do que está fugindo ?
 - Quanto antes eu ir embora melhor para o senhor, mais uma vez obrigado e me desculpe.

Saio do carro devagar e dolorosamente. Bato a porta e passo pela frente do mesmo para chegar a calçada. O Senhor me observa e alguns metros depois fala da janela :

 - Não pode fugir para sempre rapaz. Algumas pessoas sempre estarão em nossas vidas, querendo ou não.
 - Eu sei, mas algumas apenas retornam pra mostrarem por que foram embora.

 Continuo caminhando até a oficina. Escuto o barulho do carro ligando e partindo. Entro, entrego todos os documentos necessários e verifico como minha moto está. Inteira, mas pelo visto perdeu boa parte da frente na batida. Troco poucas palavras com o mecânico, prendo minhas muletas na lateral da moto e tento me acomodar. Será uma viagem dolorosa, dou a partida e sigo em frente.

 O senhor disse que algumas pessoas sempre estarão em nossas vidas, querendo ou não. Sei que é impossível evitar isso.

 Mas as vezes temos que exigir o impossível...


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Continua AQUI !!

Comentários
9 Comentários

9 Aplausos:

  1. Beah disse...:

    muito bommmmmmmmmmmmmmmmmmm, adoro teus textos, continue logo u-u

  1. Anônimo disse...:

    Parabéns, sempre cada vez melhor *-*
    Aguardo a próxima parte

  1. Julia Yago disse...:

    O conto está melhorando cada vez mais! Esse capitulo ficou muito bom, sempre com uma moral diferente. Mal posso esperar o próximo *-*

  1. Thatha disse...:

    Incrível.

  1. Anônimo disse...:

    Muito bom... Parabéns ^^

  1. Guilherme(flash) disse...:

    Cara as vezes eu fico pensando em algumas frases das histórias durante dias. Só para não esquecer(Maldito Padre Idiota)

  1. MaahMaurilo disse...:

    você é uma mula mesmo mas se toda vez que você perder os arquivos, também conseguir ter tamanha criatividade ...
    GENIUS ;P

  1. Jaq disse...:

    Muito bom mesmo! É muito talento pra uma loira só D: huauhauahua parabéns, Bardo xD

  1. Aneís disse...:

    Incentivo é sempre bom... e você merece! Continue o seu conto, é ótimo.

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